{"id":155609,"date":"2023-01-22T08:44:15","date_gmt":"2023-01-22T11:44:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/?p=155609"},"modified":"2023-01-22T08:49:36","modified_gmt":"2023-01-22T11:49:36","slug":"a-antologia-imprevisivel-que-derruba-velho-tabu-da-literatura-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/2023\/01\/22\/a-antologia-imprevisivel-que-derruba-velho-tabu-da-literatura-nacional\/","title":{"rendered":"A ANTOLOGIA IMPREVIS\u00cdVEL QUE DERRUBA VELHO TABU DA LITERATURA NACIONAL"},"content":{"rendered":"<h3><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-155610 alignleft\" src=\"http:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/A-39.jpg\" alt=\"\" width=\"586\" height=\"330\" \/>Deitado em leito suntuoso, um rico senhor de escravos est\u00e1 em seus \u00faltimos suspiros. Bajuladores preenchem a sala onde ele se encontra. Antes de partir, o moribundo ouve palavras que o descrevem quase como um anjo. Mas, num rompante de del\u00edrio, o senhor de escravos come\u00e7a a recapitular sua vida. Em confiss\u00e3o inconsciente, descreve os horrores cometidos contra os negros que mantinha cativos. As descri\u00e7\u00f5es, livres de remorso, s\u00e3o de revirar o est\u00f4mago. Em vida, o homem ordenou 500 chibatadas a uma escrava gr\u00e1vida e mandou enforcar quatro outros, que tiveram a espinha dorsal quase quebrada ao meio. Escrito por Jo\u00e3o da Cruz e Sousa (1861-1898), filho de escravos alforriados ligado \u00e0 luta abolicionista, o tenebroso conto <em>Consci\u00eancia Tranquila<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 muito lembrado na vasta produ\u00e7\u00e3o do autor, mais conhecido como um virtuose da poesia simbolista. A\u00a0obra prova, por\u00e9m, que Cruz e Sousa explorou um g\u00eanero tido como raro no Brasil do s\u00e9culo XIX: a literatura de horror.<\/h3>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/amzn.to\/3XJrtra\"><em><strong>T\u00eanebra: narrativas brasileiras de horror [1839-1899]<\/strong><\/em><\/a><\/span><\/h3>\n<h3>Ele n\u00e3o estava sozinho, nem de longe, em seu mergulho nas sombras: a instigante antologia\u00a0<em><strong>T\u00eanebra<\/strong><\/em>\u00a0mostra que as hist\u00f3rias g\u00f3ticas n\u00e3o eram exclusivas da Europa no per\u00edodo. Assim como em pa\u00edses como Inglaterra, elas marcaram presen\u00e7a em terras brasileiras. O maior e mais conhecido exemplar do horror nacional, o livro\u00a0<em>Noite na Taverna<\/em>, de \u00c1lvares de Azevedo, n\u00e3o foi um caso isolado. Al\u00e9m da hist\u00f3ria violenta de Cruz e Sousa, a publica\u00e7\u00e3o re\u00fane mais outras 26 narrativas curtas de autores nativos variados, publicadas entre 1839 e 1899.<\/h3>\n<h3><span style=\"color: #0000ff;\"><em style=\"color: #0000ff;\"><strong><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/amzn.to\/3XJrtra\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/ALUISIO-DE-AZEVEDO.jpg.jpg?quality=70&amp;strip=info\" alt=\"MENTES SOMBRIAS - Alu\u00edsio Azevedo, Machado de Assis e J\u00falia Lopes de Almeida: autores variados abra\u00e7aram o g\u00eanero -\" width=\"584\" height=\"389\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/span><\/h3>\n<h3 id=\"attachment_4220211\" class=\"wp-caption aligncenter \" style=\"width: 783px;\">MENTES SOMBRIAS \u2013 Alu\u00edsio Azevedo, Machado de Assis e J\u00falia Lopes de Almeida: autores variados abra\u00e7aram o g\u00eanero \u2013 .\/.<\/h3>\n<h3>Na hist\u00f3ria oficial de nossa literatura, consta que o per\u00edodo foi marcado pelo romantismo e realismo \u2014 mas escondeu, na verdade, um ba\u00fa repleto de fantasmas, bruxas, lendas escabrosas e crimes sanguinolentos do qual pouco se sabia. A garimpagem foi realizada ao longo de quinze anos de estudo pelos pesquisadores J\u00falio Fran\u00e7a e Oscar Nestarez, organizadores da colet\u00e2nea. \u201cNo come\u00e7o, foi quase um tiro no escuro. Encontramos, por\u00e9m, muitas obras que se encaixavam na chamada literatura de medo\u201d, conta Fran\u00e7a. Inicialmente, o projeto T\u00eanebra surgiu como um site, que foi ao ar no Halloween de 2021. Em seguida, a ideia se transformou em livro.<\/h3>\n<h3><a href=\"https:\/\/amzn.to\/3khEl9h\"><em><strong>Mundos Paralelos: Horror<\/strong><\/em><\/a><\/h3>\n<h3>Entre os autores est\u00e1 o mestre Machado de Assis. Em seu conto\u00a0<em>Sem Olhos<\/em>, o casal Vasconcelos recebe quatro amigos para tomar um ch\u00e1 num dia qualquer. Entre conversas corriqueiras, o assunto desemboca em apari\u00e7\u00f5es sobrenaturais. Parte dos presentes jura que elas s\u00e3o uma baboseira infantil. Mas um deles, o desembargador Cruz, tira da manga um relato que diz ser ver\u00eddico: quando jovem, encontrou um homem louco e os dois viram a presen\u00e7a fantasmag\u00f3rica de uma mulher que teve os olhos arrancados pelo marido ciumento.<img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/TENEBRA.jpg.jpg?quality=70&amp;strip=info&amp;w=500\" alt=\"T\u00caNEBRA - (organiza\u00e7\u00e3o de J\u00falio Fran\u00e7a e Oscar Nestarez; F\u00f3sforo; 456 p\u00e1ginas; R$\u00a089,90) -\" width=\"584\" height=\"847\" \/><\/h3>\n<h3 id=\"attachment_4220210\" class=\"wp-caption alignleft \">T\u00caNEBRA \u2013 (organiza\u00e7\u00e3o de J\u00falio Fran\u00e7a e Oscar Nestarez; F\u00f3sforo; 456 p\u00e1ginas; R$\u00a089,90) \u2013 .\/.<\/h3>\n<h3>N\u00e3o apenas Machado, mas outros grandes nomes da literatura brasileira abra\u00e7aram o horror. Em\u00a0<em>O Crime de Ot\u00e1vio<\/em>, Olavo Bilac narra uma trai\u00e7\u00e3o conjugal seguida de assassinato. Alu\u00edsio Azevedo conta as desventuras de um frade pecador em\u00a0<em>O Impenitente<\/em>. Mesmo dominada por homens, a colet\u00e2nea resgata mulheres que tamb\u00e9m tinham maestria para conduzir leitores aos sustos, caso de J\u00falia Lopes de Almeida com seu\u00a0<em>A Nevrose da Cor<\/em>. Issira, sedutora princesa do Egito antigo, \u00e9 obcecada pela cor vermelha. A\u00a0paix\u00e3o \u00e9 tanta que passa a beber sangue de escravos, numa das primeiras hist\u00f3rias com elementos vampirescos de que se tem registro no Brasil.<\/h3>\n<h3><a href=\"https:\/\/amzn.to\/3Hfg3G8\"><em><strong>O morro dos ventos uivantes<\/strong><\/em><\/a><\/h3>\n<h3>Na \u00e9poca em que foram publicados, os contos passaram despercebidos \u2014 e talvez n\u00e3o por mero acaso.<\/h3>\n<p><!--more--><\/p>\n<h3>Segundo Fran\u00e7a e Nestarez, o ocaso da nossa literatura de horror ocorreu por uma s\u00e9rie de fatores. Al\u00e9m de ser mais custoso incentivar a produ\u00e7\u00e3o de obras nacionais do que traduzir livros estrangeiros, a cr\u00edtica e a historiografia liter\u00e1ria preferiam as tramas focadas na constru\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional positiva \u2014 como as obras indianistas de Jos\u00e9 de Alencar (1829-1877) \u2014, que falassem sobre pol\u00edtica e costumes brasileiros. Apesar das tentativas de apagamento, as narrativas que n\u00e3o tinham pudor de lidar com o medo, um dos instintos mais primitivos do ser humano, sempre existiram no Brasil. Verdadeiras sobreviventes liter\u00e1rias, as p\u00e9rolas do g\u00f3tico tropical enfim saem do limbo.<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deitado em leito suntuoso, um rico senhor de escravos est\u00e1 em seus \u00faltimos suspiros. Bajuladores preenchem a sala onde ele se encontra. Antes de partir, o moribundo ouve palavras que o descrevem quase como um anjo. Mas, num rompante de del\u00edrio, o senhor de escravos come\u00e7a a recapitular sua vida. 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