{"id":46603,"date":"2015-12-05T10:00:23","date_gmt":"2015-12-05T13:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/?p=46603"},"modified":"2015-12-05T10:00:23","modified_gmt":"2015-12-05T13:00:23","slug":"meu-filho-nao-e-uma-laranja-podre-diz-mae-de-bebe-com-microcefalia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/2015\/12\/05\/meu-filho-nao-e-uma-laranja-podre-diz-mae-de-bebe-com-microcefalia\/","title":{"rendered":"\u201cMeu filho n\u00e3o \u00e9 uma laranja podre\u201d, diz m\u00e3e de beb\u00ea com microcefalia"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\">M\u00e3es compartilham experi\u00eancias em depoimentos para o CORREIO; leia trajet\u00f3rias<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A baiana Suzana Bertolucci, 33 anos, teria muito pouco em comum com a paulista Pamela da Silva Pavanelli, 23. Uma \u00e9 comerciante, a outra, dona de casa. Enquanto Suzana n\u00e3o desejava ter filhos, Pamela sempre sonhou com a maternidade. Caminhos diferentes que nunca seriam cruzados sen\u00e3o por uma coincid\u00eancia: ambas s\u00e3o m\u00e3es de crian\u00e7as com microcefalia. Enquanto Suzana engravidou por acidente da pequena Ana Laura e aprendeu a curtir a ideia de ser m\u00e3e na gesta\u00e7\u00e3o, a gravidez de Davi foi desejada antes mesmo do seu in\u00edcio por Pamela.<\/p>\n<p>Suzana, a baiana de Paulo Afonso, contraiu aos tr\u00eas meses de gravidez o v\u00edrus da zika que afetou o desenvolvimento de Ana Laura, nascida h\u00e1 dois meses. J\u00e1 Pamela, moradora de Itapecerica da Serra, na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo, teve um quadro de toxoplasmose n\u00e3o diagnosticado durante a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, as vidas delas s\u00e3o unidas pelo amor e luta pelos seus filhos. Estas s\u00e3o as suas hist\u00f3rias:<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>Suzana Bertolucci, 33 anos, natural de Paulo Afonso (BA)<\/h3>\n<div id=\"attachment_46605\" style=\"width: 595px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-46605\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-46605\" src=\"http:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/mICROCEFALIA2.jpg\" alt=\"mICROCEFALIA2\" width=\"585\" height=\"385\" srcset=\"https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/mICROCEFALIA2.jpg 620w, https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/mICROCEFALIA2-300x197.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 585px) 100vw, 585px\" \/><p id=\"caption-attachment-46605\" class=\"wp-caption-text\">Suzana com o marido, Luciano, e a filha Ana Laura<\/p><\/div>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">\n***<br \/>\n&#8220;Sou completamente apaixonada pela minha filha. Sempre tive medo da responsabilidade de ter um filho, e sempre tive medo de hospital. Por isso, fui prolongando a decis\u00e3o de ser m\u00e3e. Primeiro dizia que ia ter aos 31 anos, depois adiei. Tudo por medo.<\/p>\n<p>Tanto o medo do parto quando o da responsabilidade, porque eu sei que uma crian\u00e7a muda a vida dos pais. E Ana Laura mudou a minha vida totalmente. S\u00f3 que para melhor.<\/p>\n<p>Descobri que estava gr\u00e1vida no final do janeiro, e n\u00e3o foi algo planejado. Se eu planejasse, era capaz de n\u00e3o ter tido filhos nunca. Mas eu vou te dizer &#8211; se eu soubesse que era assim, eu tinha tido antes. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o t\u00e3o boa, olhar aquele rostinho brincando, sorrindo, com as perninhas balan\u00e7ando. \u00c9 maravilhoso.<\/p>\n<p>Com tr\u00eas meses de gesta\u00e7\u00e3o, tive a Zika, eu e o meu irm\u00e3o. Estava com manchas no corpo e muita coceira. Mas a gente achou que provavelmente era uma infec\u00e7\u00e3o alimentar, porque ainda n\u00e3o tinha muitas informa\u00e7\u00f5es sobre a zika.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico da Ana Laura s\u00f3 chegou no fim da gesta\u00e7\u00e3o, no final de agosto. Eu comecei a ter um pouquinho de press\u00e3o alta, e a m\u00e9dica solicitou a ultrassom. L\u00e1, descobrimos que a minha nen\u00e9m tinha microcefalia, mas ela n\u00e3o me explicou direito o que era e pediu para que eu procurasse um especialista na capital \u2013 em Salvador ou Recife.<\/p>\n<p>Fomos direto no Google e tomamos aquele susto. Receber aquela not\u00edcia foi desesperador, ainda mais sem ter muita informa\u00e7\u00e3o. Na hora, eu me segurei, sa\u00ed da sala da m\u00e9dica tranquila, mas quando eu entrei no carro n\u00e3o deu pra segurar e desabei.<\/p>\n<p>A gente [Suzana e o marido, Luciano Bertolucci] chorou bastante. Fomos direto para casa e n\u00e3o fomos mais trabalhar, eu n\u00e3o queria ver mais ningu\u00e9m. E n\u00e3o tivemos muito tempo para nos abalar, porque Laurinha j\u00e1 estava perto de nascer e t\u00ednhamos de ver tudo antes.<\/p>\n<p>Acabamos voltando para Salvador, de onde t\u00ednhamos sa\u00eddo h\u00e1 um ano para ficar mais perto da minha fam\u00edlia em Paulo Afonso. Largamos tudo \u2013 emprego, casa, nossa loja de sapatos. Nem pra me despedir de casa ou dos parentes eu voltei at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>A Ana Laura nasceu no dia 30 de setembro no Hospital Geral Roberto Santos, onde fui literalmente pedir socorro na emerg\u00eancia da unidade ap\u00f3s descobrir o diagn\u00f3stico dela, porque n\u00e3o tinha recebido at\u00e9 ent\u00e3o nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre quem podia procurar.<\/p>\n<p>Ela foi uma das primeiras a nascer l\u00e1 com microcefalia. A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 grave. Uma enfermeira amiga nossa disse que dos 21 leitos do hospital, sete est\u00e3o ocupados com crian\u00e7as com microcefalia.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos n\u00e3o tinham nos dado muita esperan\u00e7a sobre a sobreviv\u00eancia da Laurinha, e minha filha ficou um m\u00eas internada na semi-intensiva. Eu brinco com Luciano que \u00e9 como se a gente n\u00e3o tivesse vivendo de verdade enquanto ela estava no hospital.<\/p>\n<p>A gente n\u00e3o via jornal, a gente n\u00e3o via televis\u00e3o, s\u00f3 acordava, tomava caf\u00e9 e sa\u00eda para ficar com ela. E depois s\u00f3 voltava para dormir. Era muito desgastante. Como deixamos tudo em Paulo Afonso, estamos morando na casa de amigos aqui em Salvador. Uma hora na casa de um, outra hora na casa de outro. Mas eu penso que tem tanta gente pior que a gente, passando por dificuldades piores, ent\u00e3o isso nunca nos desanimou muito n\u00e3o.<\/p>\n<p>O que a gente pediu muito a Deus foi para conseguir trazer ela do hospital bem. E conseguimos isso, at\u00e9 antes do prazo, um dia ap\u00f3s a Ana Laura completar um m\u00eas de nascida.<\/p>\n<p>Quando os m\u00e9dicos falam o que \u00e9 microcefalia, a gente fica pensando que o beb\u00ea vai ser uma crian\u00e7a diferente, paradinha. Mas isso n\u00e3o \u00e9 Laurinha. Ela \u00e9 muito ativa, cheia de personalidade e manhas, tem muita energia e muita for\u00e7a. Eu n\u00e3o vejo diferen\u00e7a dela para outra crian\u00e7a. Ela \u00e9 bem espertinha. Com 15 dias de nascida, ela j\u00e1 levantava o tronco todo.<\/p>\n<p>Meu marido est\u00e1 encantado com ela. O cuidado dela \u00e9 dividido inteiramente entre n\u00f3s. Ele \u00e9 um pai especial, um paiz\u00e3o. Acorda de madrugada para dar a comida dela, tudo. No hospital ela ficou um m\u00eas internada, e n\u00f3s dois ficamos ao lado dela o tempo todo.<\/p>\n<p>Hoje, temos acompanhamento com neuropediatra, e com o pediatra normal. Vamos ter uma consulta com o neurocirurgi\u00e3o, e estamos tentando marcar uma consulta com o fisioterapeuta. Tamb\u00e9m tentamos vaga para ela no Hospital Sarah, mas n\u00e3o conseguimos.<\/p>\n<p>Eles [os m\u00e9dicos] dizem para a gente que n\u00e3o teve como saber como vai ser o futuro, porque isso afetou o sistema nervoso e neurol\u00f3gico dela. Com est\u00edmulos, s\u00f3 Deus saber\u00e1 dizer o que ela pode fazer. Eu tenho certeza que o nosso amor e a nossa dedica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ajudam ela, e muito.<\/h3>\n<div class=\"news-related\">\n<h3 class=\"component-title news-related-title\">Pamela da Silva Pavanelli, 23 anos, fundadora da grupo \u201cEu amo algu\u00e9m com microcefalia\u201d no Facebook<\/h3>\n<div id=\"attachment_46604\" style=\"width: 595px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-46604\" loading=\"lazy\" class=\"  wp-image-46604\" src=\"http:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MICROCEFALIA1.jpg\" alt=\"MICROCEFALIA1\" width=\"585\" height=\"1040\" srcset=\"https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MICROCEFALIA1.jpg 620w, https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MICROCEFALIA1-169x300.jpg 169w, https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/MICROCEFALIA1-576x1024.jpg 576w\" sizes=\"(max-width: 585px) 100vw, 585px\" \/><p id=\"caption-attachment-46604\" class=\"wp-caption-text\">Pamela criou grupo para discutir a microcefalia<\/p><\/div>\n<h3 class=\"component-title news-related-title\">O meu m\u00e9dico do pr\u00e9-natal foi negligente comigo. Eu peguei toxoplasmose durante a gravidez, mas ele n\u00e3o viu, n\u00e3o pediu os exames. Da\u00ed, Davi nasceu e com dois meses foi diagnosticado com microcefalia. A gente foi pego de surpresa, mas a fam\u00edlia da gente sempre teve muito amor para dar &#8211; eu, meu marido e o meu filho de 6 anos, irm\u00e3o mais velho do Davi. Eles se d\u00e3o muito bem, e meu menino sempre me ajuda muito nos cuidados com o irm\u00e3o.<\/h3>\n<\/div>\n<h3 class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><!--more--><br \/>\nNo come\u00e7o foi muito dif\u00edcil porque eu ca\u00ed em um mundo que eu n\u00e3o conhecia. Davi ficou muito internado assim que nasceu, e os m\u00e9dicos diziam que ele n\u00e3o ia sobreviver. Mas hoje ele vive uma vida normal. Ele ainda n\u00e3o anda, ainda n\u00e3o fala, mas come direito, vai pra escola.<\/p>\n<p>Acabei fazendo um curso de t\u00e9cnica em enfermagem para cuidar melhor do meu filho. Vivo integralmente dedicada a isso. E fiquei triste como a situa\u00e7\u00e3o dessas crian\u00e7as com microcefalia est\u00e1 sendo tratada, porque a realidade \u00e9 outra. Foi da\u00ed que surgiu a iniciativa para criar a p\u00e1gina de apoio no Facebook, por conta da forma que o governo vem tratando a doen\u00e7a na m\u00eddia.<\/p>\n<p>Queremos explicar ao governo que estamos aqui, que existimos, e precisamos de cuidados tamb\u00e9m. Eles est\u00e3o colocando a\u00ed como se as nossas crian\u00e7as fossem uma monstruosidade, como se nossos filhos n\u00e3o tivessem esperan\u00e7a, e n\u00e3o \u00e9 nada disso.<\/p>\n<p>Tem m\u00e3es que n\u00e3o tem orienta\u00e7\u00e3o sobre como lidar com um filho com microcefalia. Tem m\u00e3es que querem abortar, ou que abandonam as crian\u00e7as porque acham que \u00e9 algo contagioso. E n\u00e3o \u00e9. Nossas crian\u00e7as s\u00e3o normais, s\u00e3o amorosas. Elas mudam nossas vidas sim, mas para melhor.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos falam como se nossos filhos fossem coitados. Um deles chegou a dizer que era uma pena o que tinha acontecido, que o meu filho era uma laranja podre. Mas ele n\u00e3o \u00e9 uma laranja podre. Nossos filhos n\u00e3o s\u00e3o doen\u00e7a. Eles n\u00e3o s\u00e3o contagiosos. A \u00fanica coisa que eles transmitem \u00e9 amor.<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e3es compartilham experi\u00eancias em depoimentos para o CORREIO; leia trajet\u00f3rias A baiana Suzana Bertolucci, 33 anos, teria muito pouco em comum com a paulista Pamela da Silva Pavanelli, 23. Uma \u00e9 comerciante, a outra, dona de casa. Enquanto Suzana n\u00e3o desejava ter filhos, Pamela sempre sonhou com a maternidade. 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