{"id":80737,"date":"2017-05-13T20:18:39","date_gmt":"2017-05-13T23:18:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/?p=80737"},"modified":"2017-05-13T20:18:39","modified_gmt":"2017-05-13T23:18:39","slug":"no-13-de-maio-jovens-artistas-recontam-a-historia-da-escravidao-e-da-abolicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/2017\/05\/13\/no-13-de-maio-jovens-artistas-recontam-a-historia-da-escravidao-e-da-abolicao\/","title":{"rendered":"No 13 de Maio, jovens artistas recontam a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o e da aboli\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\">No dia 13 de maio de 1888 foi sancionada a Lei \u00c1urea, que aboliu oficialmente a escravid\u00e3o no Brasil. A lei, ao contr\u00e1rio do que resumem muitos livros de hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 m\u00e9rito exclusivo da princesa Isabel, mas resultado de um movimento liderado por abolicionistas e pelos ent\u00e3o escravos, fugidos e libertos, e que envolve grandes nomes como o de Zumbi dos Palmares e sua companheira Dandara. A aboli\u00e7\u00e3o se deu oficialmente naquela data, mas nenhuma estrutura foi oferecida aos rec\u00e9m-libertos, que se viram sem terras ou recursos. A heran\u00e7a deste momento hist\u00f3rico se perpetua at\u00e9 hoje: \u00e9 entre a popula\u00e7\u00e3o negra que se verificam os maiores \u00edndices de pobreza e viol\u00eancia, al\u00e9m dos entraves para o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">As condi\u00e7\u00f5es em que vive a maior parte da popula\u00e7\u00e3o negra ao longo da vida afetam todo o processo de escolariza\u00e7\u00e3o. Em 2015, apesar de o n\u00famero de negros no ensino superior ter dobrado, influenciado por pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas, somente 12,8% dessa popula\u00e7\u00e3o chegou ao n\u00edvel superior, enquanto entre os brancos o \u00edndice era de 26,5%. A dificuldade dos estudantes negros em ingressar em uma faculdade \u00e9 reflexo tamb\u00e9m das altas taxas de evas\u00e3o escolar ainda no ensino fundamental e dos \u00edndices de repet\u00eancia ao longo da vida.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Neste 13 de Maio, a Ag\u00eancia Brasil conversou com dois jovens artistas que abordam em suas obras a quest\u00e3o da escravid\u00e3o: Jarid Arraes e Wallace Cardozo. Jarid tem 26 anos, \u00e9 escritora, cordelista, autora do livro As Lendas de Dandara e de mais de 60 t\u00edtulos em literatura de cordel. Nasceu em Juazeiro do Norte, na regi\u00e3o do Cariri (CE). As Lendas de Dandara \u00a0mistura fic\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria para narrar dez contos sobre a guerreira quilombola Dandara dos Palmares, companheira de Zumbi dos Palmares. No novo livro, que ser\u00e1 lan\u00e7ado em junho, Hero\u00ednas Negras Brasileiras em 15 Cord\u00e9is, Jarid conta mais hist\u00f3rias de l\u00edderes quilombolas e de batalhas no per\u00edodo da escravid\u00e3o.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Wall Cardozo, 19 anos, \u00e9 MC do WWL RAP, grupo de Salvador. Em 2016, eles lan\u00e7aram o EP Tinha que ser Preto e t\u00eam no repert\u00f3rio can\u00e7\u00f5ees que tratam da tem\u00e1tica racial. Al\u00e9m de Cardozo, integram o WWL RAP Lucas Santiago e Wesley Correia. O grupo surgiu em 2013, quando os tr\u00eas tiveram que fazer um trabalho da escola para apresentar no evento do Dia da Consci\u00eancia Negra, comemorado em 20 de novembro. O rap agradou e os colegas pediram mais m\u00fasicas: uma delas chama-se Ainda existe escravid\u00e3o. O trabalho do grupo tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel em plataformas digitais como Spotfy e Youtube.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" class=\"  wp-image-80738 alignleft\" src=\"http:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/00046.jpg\" alt=\"000\" width=\"585\" height=\"329\" srcset=\"https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/00046.jpg 800w, https:\/\/www.blogdotarugao.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/00046-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 585px) 100vw, 585px\" \/><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Confira os principais trechos das entrevistas com Wall e Jadir:<\/h3>\n<p><!--more--><\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Ag\u00eancia Brasil: De que forma o tema da escravid\u00e3o aparece em suas obras?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Jarid Arraes: As Lendas de Dandara foi um livro que escrevi para desfazer mentiras que nos foram contadas a respeito da escravid\u00e3o no Brasil. Digo isso porque me lembro muito bem de ter aprendido na escola que os negros eram mais passivos diante da escravid\u00e3o, enquanto os \u00edndios se revoltavam e por isso acabaram sendo mortos. S\u00f3 adulta descobri que os quilombos e revoltas foram muito al\u00e9m do quilombo de Palmares e de Zumbi. Com meu livro, quis mostrar um pouco do que essas pessoas faziam: desde a organiza\u00e7\u00e3o em quilombos, que eram praticamente pa\u00edses dentro do Brasil, at\u00e9 arrombamento de senzalas, inc\u00eandios em planta\u00e7\u00f5es que lucravam \u00e0s custas da escravid\u00e3o, roubos de navios negreiros para libertar quem vinha escravizado, entre tantos outros exemplos. No caso, escolhi trazer uma figura feminina para o protagonismo, pois existiram muitas, como Tereza de Benguela, e desfazer o preju\u00edzo que j\u00e1 tivemos ao longo de nossas vidas. Minha inten\u00e7\u00e3o era contribuir com uma vis\u00e3o mais verdadeira e justa sobre como foi o processo de escravid\u00e3o no Brasil, contar &#8220;o outro lado&#8221; que \u00e9 ignorado e tantas vezes deliberadamente apagado da hist\u00f3ria.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Wall Cardozo: N\u00f3s utilizamos a escravid\u00e3o enquanto fator hist\u00f3rico negativo para mostrar o quanto o racismo, as desigualdades, a viol\u00eancia, tudo isso \u00e9 reflexo desta enorme mancha na hist\u00f3ria do Brasil. Al\u00e9m disso, as lideran\u00e7as e revoltas daquela \u00e9poca servem como inspira\u00e7\u00e3o para a nossa luta di\u00e1ria.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Ag\u00eancia Brasil: Como acham que o per\u00edodo da escravid\u00e3o tem sido retratado no Brasil e de que maneira a literatura e a m\u00fasica contribuem para outras abordagens?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Jarid Arraes: Percebo que a escravid\u00e3o no Brasil tem sido tratada como um fen\u00f4meno distante e quase mitol\u00f3gico; e isso faz com que as pessoas n\u00e3o enxerguem suas consequ\u00eancias vivas at\u00e9 hoje. Ainda existe escravid\u00e3o no Brasil, precisamos acordar para isso. Parar e discutir com seriedade como as pessoas negras foram jogadas e exploradas no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, em como a mentalidade racista e eugenista nunca foi realmente combatida, e por isso at\u00e9 hoje nossa cultura preserva valores e pensamentos racistas. A literatura pode mostrar tudo isso e trazer os leitores para o miolo da situa\u00e7\u00e3o, criar um sentimento de empatia e compreens\u00e3o em quem l\u00ea, que independentemente de sua cor de pele e de sua origem, pode entender o que significava ser escravo, quais eram as estrat\u00e9gias para lutar contra a escravid\u00e3o, como era ser uma mulher negra no per\u00edodo p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o. Enfim, quebrar um muro de racismo que separa as pessoas e que impede que se aprofundem em outras hist\u00f3rias, outras narrativas, sobretudo nas narrativas daqueles que foram oprimidos. Qualquer literatura \u00e9 pol\u00edtica, quer saiba disso ou n\u00e3o.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Wall Cardozo: [A escravid\u00e3o \u00e9 abordada] apenas em datas espec\u00edficas. O racismo s\u00f3 \u00e9 tratado como um problema do tamanho que \u00e9 no dia 20 de novembro [Dia da Consci\u00eancia Negra] e a escravid\u00e3o s\u00f3 \u00e9 pauta no dia 13 de maio e em aulas de hist\u00f3ria, mas sem a \u00eanfase negativa que merece, sem mostrar \u00e0s crian\u00e7as e aos adolescentes em forma\u00e7\u00e3o que muitas condi\u00e7\u00f5es e atitudes dos dias atuais s\u00e3o consequ\u00eancia de um passado sujo deste pa\u00eds. E \u00e9 a\u00ed que entra o rap, o rap faz isso. Tentamos, nas m\u00fasicas, expor o que passamos diariamente e deixar bem claro quem \u00e9 o culpado de tudo isso.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Ag\u00eancia Brasil: Para voc\u00eas, como essa quest\u00e3o deveria ser abordada?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Jarid Arraes: Precisamos discutir a escravid\u00e3o na escola de forma aprofundada e livre de racismo. Sobretudo, precisamos conhecer grandes lideran\u00e7as negras, al\u00e9m de Zumbi dos Palmares, que lutaram contra a escravid\u00e3o de muitas formas. No meu livro Hero\u00ednas Negras Brasileiras, que ser\u00e1 lan\u00e7ado em junho, trago v\u00e1rios nomes de l\u00edderes quilombolas e de revoltas que marcaram nossa hist\u00f3ria, mas que ainda permanecem esquecidas. N\u00e3o conheci nenhuma delas na escola ou na m\u00eddia, por outro lado, aprendi sobre os casos amorosos dos imperadores. Se todos os fatos hist\u00f3ricos s\u00e3o importantes, por que ignoramos uma figura como Tereza de Benguela, que foi rainha de um quilombo com parlamento e tanto sucesso, que era basicamente uma na\u00e7\u00e3o cheia de diversidade \u00e9tnica dentro do Brasil escravocrata? Come\u00e7ar da\u00ed seria muito bom.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Wall Cardozo: N\u00e3o adianta participar de campanhas pela causa apenas em datas &#8220;comemorativas&#8221; e, no dia seguinte, voltar a ter atitudes racistas. De nada adianta ensinar aos jovens que eles devem respeitar as pessoas no dia 13 de maio ou no 20 de novembro. Essa pauta deve ser di\u00e1ria, tem que ser mat\u00e9ria de jornais todos os dias, pois acontece todos os dias. S\u00f3 haver\u00e1 algum avan\u00e7o nesse sentido quando nos conscientizarmos de pequenas atitudes que fortalecem todo esse sistema perverso e injusto.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Ag\u00eancia Brasi: O que representa o dia 13 de Maio, quando oficializou-se a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura no Brasil?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Jarid Arraes: Penso que o 13 de Maio oficializou algo que j\u00e1 vinha sendo constru\u00eddo e lutado por pessoas negras e por abolicionistas a duras penas, com muita coragem. E com certeza n\u00e3o foi o fim da explora\u00e7\u00e3o de pessoas negras, tampouco do racismo. N\u00e3o foi um ato que veio acompanhado de qualquer medida para combater a perversidade da escravid\u00e3o e o que ela gerou na sociedade. A data deveria ser uma oportunidade de reflex\u00e3o e revis\u00e3o profundas, no passado e no presente.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Wall Cardozo: Representa uma conquista oriunda de muita luta, suor e sangue. O nome lembrado no dia de hoje n\u00e3o deve ser o da princesa [Isabel, que assinou a Lei \u00c1urea], mas os de Dandara, Zumbi, Ganga Zumba. Pessoas que, de fato, lutavam e defendiam a causa. Matariam e morreriam defendendo o seu povo. O m\u00e9rito \u00e9 deles. A luta, at\u00e9 hoje, \u00e9 nossa. N\u00f3s lutamos da forma que sabemos e tentamos atingir um n\u00famero cada vez maior de pessoas. Quem s\u00e3o nossos her\u00f3is? N\u00f3s n\u00e3o endeusamos a princesa, mas \u00e9 dela a imagem nos livros did\u00e1ticos de hist\u00f3ria quando o cap\u00edtulo \u00e9 o do fim da escravid\u00e3o. N\u00e3o devemos nada a ela, ela n\u00e3o fez nada al\u00e9m da obriga\u00e7\u00e3o.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Ag\u00eancia Brasil: \u00a0Qual \u00e9 o lugar da literatura e do rap, tanto na sua vida, quanto em diversos aspectos e discuss\u00f5es no pa\u00eds?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Jarid Arraes: A literatura foi e ainda \u00e9 um privil\u00e9gio de quem tem um perfil social muito delimitado. Nossas refer\u00eancias de escritores s\u00e3o, na maioria das vezes, figuras masculinas e brancas de meia-idade. Isso faz com que a escrita, a publica\u00e7\u00e3o e a possibilidade de ter leitores seja uma batalha para quem n\u00e3o se enquadra nesse perfil. E isso tamb\u00e9m se explica historicamente, pois as mulheres brancas tiveram acesso tardio \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e ao direito de escrever e publicar o que escreviam. Imaginem s\u00f3 as mulheres negras! Temos a\u00ed um problema que tem hist\u00f3ria e consequ\u00eancias reais nos dias de hoje, mas, de novo, n\u00e3o estamos discutindo isso no mercado editorial, nas feiras e festas liter\u00e1rias, nas livrarias. Pelo contr\u00e1rio, s\u00f3 se convida autoras negras para certos eventos quando se faz um rebuli\u00e7o enorme. \u00c9 uma vergonha. Por isso que, para mim, a literatura \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de batalhar, de resistir, de desfazer mentiras hist\u00f3ricas e contar as verdades que tentaram apagar.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Wall Cardozo: O cen\u00e1rio atual \u00e9 preocupante. N\u00e3o h\u00e1 incentivo \u00e0 arte, principalmente quando essa arte \u00e9 o rap. N\u00f3s denunciamos falhas do sistema, ent\u00e3o ele n\u00e3o tem interesse nenhum em nos favorecer. O acesso do jovem \u00e0 universidade cada vez mais dificultado, cortes em bolsas e incentivos. A arte \u00e9 libertadora, abre a mente e amplia vis\u00f5es. E por ser libertadora, \u00e9 tratada como amea\u00e7a.<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Fonte: Boc\u00e3o News<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 13 de maio de 1888 foi sancionada a Lei \u00c1urea, que aboliu oficialmente a escravid\u00e3o no Brasil. 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