Como empresário, Donald Trump não queria ser comparado a um jogador — alguém que faz apostas arriscadas e conta com a sorte. Para ele, o ideal era dar as cartas. “Ser o dono da banca é melhor”, disse certa vez. Como presidente dos Estados Unidos, Trump continua o mesmo e aspira o controle de uma banca muito maior: o comércio mundial. Com isso, pretende reverter o enorme déficit nas trocas do país, que saltou 17% no ano passado e somou 918 bilhões de dólares. Sua primeira aposta foi alta: no início do mês, impôs pesadas tarifas a mais de 150 países, incluindo o Brasil. Dias depois, em meio a protestos, suspendeu a medida por três meses e se dispôs a negociar com quem lhe trouxesse ofertas “fenomenais”. Agora, o mundo tenta saber se ele deseja mesmo negociar e se o tarifaço é apenas um estratagema. Outra possibilidade é que Trump planeja reindustrializar os Estados Unidos, e as sobretaxas são inegociáveis, pois protegem as empresas locais da importação predatória e forçam as multinacionais a investir lá. “Trump parece seguir a segunda opção, mas ninguém sabe de fato”, diz Jason Furman, professor da Universidade Harvard que assessorou por oito anos o então presidente Barack Obama (leia a entrevista). Sem clareza sobre as reais intenções da Casa Branca, governos e empresas estudam o que fazer.

Caso Trump leve a sério as negociações, o poder de barganha de cada país será vital. Um exemplo é o tratamento dado ao Vietnã e à União Europeia, com a qual os Estados Unidos registraram um déficit de 236 bilhões de dólares em 2024. Ambos propõem zerar as tarifas de importação dos artigos americanos se receberem o mesmo em troca. Mas, enquanto os vietnamitas são ignorados, os europeus são recebidos em Washington. Mesmo a China, a suposta vilã da história, que fez 300 bilhões de dólares de superávit no comércio bilateral, pelo que foi taxada em até 245%, possui bons trunfos. O país poderia, por exemplo, comprar mais produtos agrícolas dos Estados Unidos, em troca de tarifas menores sobre suas exportações — e não seria uma surpresa. Em 2019, no primeiro mandato de Trump, os dois lados fecharam um acordo semelhante que não chegou a ser implementado, devido à pandemia de covid-19.

Tal acordo seria péssimo para o Brasil, hoje um dos maiores fornecedores da China. “Competimos com os Estados Unidos na exportação de grãos e carne”, diz Larissa Wachholz, analista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. A soja é o carro-chefe das nossas exportações e, em 2024, rendeu 43 bilhões de dólares, dos quais, 32 bilhões vieram da China. O país também respondeu por 47% dos 12 bilhões de dólares que exportamos de carne bovina. Como torcer para Trump e Xi Jinping não se entenderem não resolverá nossos problemas, os negociadores brasileiros, liderados pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin, e pelo chanceler, Mauro Vieira, buscam uma moeda de troca para oferecer a Washington. Uma opção seria cortar a tarifa do etanol de milho americano, hoje em 18%. Trump já se queixou em público sobre a questão e observou que cobrava apenas 2,5% do nosso etanol de cana — isso, claro, antes de nos impor a tarifa mínima de 10%. Embora essa sobretaxa seja pequena quando comparada às de outros países, seu impacto em algumas áreas será relevante. É o caso do suco de laranja, que tem nos Estados Unidos seu maior mercado. O setor é um bom exemplo de como Trump pode machucar o bolso de seus eleitores. A produção americana de laranja enfrenta problemas com pragas que arruínam os pomares. Por isso, não supre toda a demanda. “As exportações brasileiras ajudam os Estados Unidos a sustentar o consumo”, diz Ibiapaba Netto, diretor da CitrusBR, que representa os produtores nacionais. “A sobretaxa pressionará os preços para os americanos.” (VEJA)

RK