1Produzido por estudantes de Comunicação Social – Rádio e TV, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), “O lado de cima da cabeça” é um documentário experimental, cujo objetivo principal é discutir os conceitos pré-estabelecidos pela sociedade acerca da estética capilar negra. O tema é apresentado sob variados pontos de vista e realidades diversas. No mundo virtual, o vídeo tem chamado a atenção de muita gente. Em apenas dois dias de exibição, já tinha atingido a marca de mais de mil visualizações.
Escrito e dirigido por Naira Soares, “O lado de cima da cabeça” aborda diversidade, preconceito, reconhecimento e afirmação da identidade através do cabelo. Em um mundo onde o cabelo liso prevalece como modelo padrão de beleza, desfavorecendo os crespos e afins, surge a necessidade de discussão do tema.
Segundo Naira, o documentário tem por objetivo “desmitificar questões de ordem ideológica onde o elemento cabelo é tido como referência (negativa ou positiva) de posição social ou posicionamento identitário”. Atualmente, a temática está em evidência nas peças publicitárias e em redes sociais. Apesar disso, é preciso que haja consciência e cuidado com as mensagens transmitidas pelas redes de comunicação, como diz Naira.
“Não é simplesmente ‘aceitar’ os negros como iguais, é entender o histórico dele no Brasil, fomos trazidos à força para um lugar onde seríamos subjugados e usados durante séculos, mesmo após a ‘Abolição da Escravatura. Quando falamos de cabelo negro, estamos falando através da beleza sobre nossa ancestralidade, nossa raiz, nossa cultura, nosso povo, nossa história. É um ato político, é uma rebeldia contra o fato de nascermos com o sabor amargo da escravidão preso em nossa raiz; logo, não é de estética que estamos discutindo”, argumentou.
Onde começou?
A escolha do cabelo como forma de identidade para ser o tema do documentário surgiu a partir da realidade vivenciada por Naira todos os dias. “Há sete meses estou com o cabelo totalmente natural, anteriormente ao corte eu passei um ano e meio usando trança nagô – conhecida como tranças de fibras – e em outubro do ano passado decidi fazer o corte conhecido como BC (Grande corte), cortei toda parte alisada e embranquecida que havia em mim. Quando me olhei no espelho, despida de toda colonização da qual fui vítima durante toda minha vida, me senti a pessoa mais feliz do mundo”, relatou.
Naira espera que a discussão trazida pelo documentário possa ser levada para além dos muros da universidade. “Penso que vivemos em sociedade e ela não se restringe ao ambiente universitário, devemos devolver aquilo que aprendemos, por isso, o nome do curso é comunicação social. Além do mais, a maior parte da população negra não está na universidade, estão nos bairros, no comércio, nas escolas, nas igrejas, nas comunidades e essas são as maiores vítimas do colonialismo europeu ao qual somos sujeitos”, explicou. Ela acredita que cada pessoa pode e deve utilizar o potencial que possui para tentar mudar o mundo, “E o que transforma mais o mundo do que a educação? Por entender quão diversas são as pessoas, decidi usar a minha ‘arma’ para o bem, para a conscientização dos adultos, adolescentes e principalmente das crianças. Por isso também, eu liberei o documentário na internet para que educadores, líderes de comunidades ou algum grupo social possam estar usando-o como forma de um debate construtivo”, acrescentou.
O vídeo apresenta pessoas de diversos lugares da Bahia, Morro de São Paulo, Valença, Santo Antonio de Jesus, Olivença, Ilhéus e Itabuna. A trilha sonora foi composta e cantada pelo casal da banda Pastilhas: Ize Duque Magno e Jonnie Walker. Ize, inclusive, também participa do documentário como uma das entrevistadas.
Por Alanna Alves